Quando sexo demais é doença
Para os dependentes de amor e sexo, o que seria prazeroso se torna uma prisão diante do descontrole de querer sempre mais, a qualquer momento, em qualquer lugar, com qualquer pessoa Texto: Oldair de Oliveira
Fatores desencadeadores
Estudos dão conta que fatores genéticos e familiares e contato com sexualidade de forma precoce estão na origem do problema. É muito frequente, por exemplo, o compulsivo sexual ter histórico de ocorrência de abuso sexual na infância. Fábio, nosso personagem do início dessa matéria, está nesse grupo. “Em uma família normal, uma macieira dá maçãs. Em outras, dá cobras e a gente leva um susto. Aquela pessoa de quem se espera que seja um exemplo, de repente, tem atitudes que não esperamos. E o pior: como criança, você ainda acha que a culpa é sua”, revela.
Para pessoas como Fábio, existem os grupos anônimos. Mas até chegar a uma dessas irmandades, muitas são as voltas que dão e o tempo que perdem. Nunca entram lá quando começam a cavar e sim quando já atingiram o fundo do poço. “Geralmente, chegam sofrendo muito, com consequências nas áreas fisica, mental, emocional e financeira”, afirma Carlos Rico, membro do Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa). Esse grupo existe há 33 anos no mundo, há 16 marca presença no Brasil e é a principal referência quando o assunto é compulsão sexual. São mais de 30 grupos no País, cada um com, em média, 20 participantes.
Essa irmandade segue os princípios dos Alcoólicos Anônimos, incluindo os 12 passos, originalmente formulados por Bill Wilson (1895- 1971), cofundador do AA, em 1938. No caso do Dasa, o único requisito para ser membro é “ter o sincero desejo de libertar-se da dependência de amor e sexo”. E, como uma organização independente, a entidade se mantém com contribuições espontâneas de seus membros.
E nenhum especialista ousa dizer que o tipo de auxílio oferecido por esses coletivos não funcionam. Diego Henrique Viviani, do Inpasex, reitera esse discurso, mas salienta que, em muitos casos, é importante um acompanhamento psiquiátrico associado. “As terapias de grupo podem funcionar sim, uma vez que as pessoas começam a se ajudar mutuamente. Mas, alguns casos precisam ser olhados com mais cautela, e, para isso, a melhor indicação é a psicoterapia individual”, diz.
O psiquiatra Marco Scanavino coloca a psicoterapia como a principal arma no combate à compulsão sexual. Segundo ele, pode-se usar alguns medicamentos que ajudam a controlar um pouco o apetite sexual, mas a aceitação depende do paciente. “No IPq (Instituto de Psiquiatria do HC), nós utilizamos a psicoterapia psicodinâmica. É importante para o paciente se conhecer melhor, entender o sentido que o comportamento está tomando e aos poucos ir buscando mudanças e mais controle sobre sua vida sexual e se realizar mais no plano afetivo”, explica.
Essa terapia é oferecida individual e em grupo e tem duração limitada de quatro meses. Depois desse período mais intenso, o paciente vai continuar a ser acompanhado por psiquiatras e psicoterapeutas. Como em qualquer outro caso de dependência, não se fala em cura para os viciados em sexo, mas com as medidas certas, é possível controlar o impulso e transformar uma vida sexual doentia em prazerosa.
Hipertexto
Psicoterapia psicodinâmica.
Utiliza conhecimentos da psicanálise, geralmente em sessões semanais de 50 minutos, para ajudar a pessoa a se descobrir e a desenvolver seu bem-estar psicológico. Por meio de escuta e de reflexão, leva o participante à capacidade de se sentir bem consigo mesmo e com a vida.
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